Novo estudo aponta que morrem até 829 pessoas por dia nos hospitais brasileiros devido à condições adquiridas durante internação

Estudo do Instituto de Estudos da Saúde Suplementar (IESS) liderado por professor da Faculdade de Medicina da UFMG aponta uma realidade alarmante nos hospitais brasileiros. Em levantamento recente feito pelo grupo estima-se que condições adquiridas durante a internação hospitalar sejam o fator determinante para a morte de até 302 mil pessoas por ano no país, ou seja, não fossem esses eventos adversos, haveria grande probabilidade dessas vidas serem salvas.

O estudo envolveu o acompanhamento de 240 mil pacientes em 133 hospitais que prestam serviços a operadoras de saúde suplementar durante os 12 meses entre Julho de 2016 e e Junho de 2017. Com os dados obtidos, a equipe responsável pela pesquisa foi capaz de apontar diferenças significativas nos resultados assistenciais para pacientes com e sem condições adquiridas durante uma internação, além de poder estimar a dimensão desse problema e caracterizar o perfil epidemiologico dos eventos adversos e da população atingida.

Os resultados do estudo mostram que 7,2% dos pacientes internados tiveram alguma condição adquirida (CA). Esse percentual é maior em homens (7,9%) do que mulheres (6,9%), mais frequêntes em pacientes clínicos (10,3%) do que cirúrgicos (5,5%) e se concentram nos extremos da faixa etária com 9% dos pacientes com menos de 28 dias de idade e 13,3% daqueles com mais de 60 anos sofrendo com alguma CA. Como já dito antes, nem todas as CAs  determinam óbito, mas 71,7% causam algum dano ao paciente. Por dano entende-se “qualquer efeito prejudicial, incluindo a doença, lesão, sofrimento, incapacidade e morte”.

Ao analisar a epidemologia das CAs observou-se uma prevalencia de CAs não infecciosas (85,3%) sobre CAs infecciosas (14,7%), sendo que apenas 2 categorias concentram 71,7% de todas as CAs: Dispositivos (aparelhos) gerais de uso hospitalar ou pessoal, associados a incidentes adversos – dispositivos (aparelhos) para fins terapêuticos (não-cirúrgicos) e aparelhagem de reabilitação (40,7%) e Complicações vasculares subsequentes à infusão, transfusão e injeção terapêutica (31%). As CAs com dano mais frequentes foram: ulcera de pressão, Infecção urinária associada ao uso sonda vesical, Infecção de sítio cirúrgico, Fraturas/outras lesões decorrentes de quedas ou traumatismos dentro do hospital, trombose venosa profunda ou Embolia pulmonar, Infecção relacionada à cateter venoso central

Muito tem se discutido acerca da chamada inflação médica e dos custos com a prestação de serviços de saúde de maneira geral. Há, inclusive, grande discussão acontecendo no congresso para rever as regras dos planos de saúde. As CAs são, seguramente, fator de grande influência nesses custos pois são determinantes para tempos de internação significativamente maiores, sendo de 12,6 dias na média para pacientes com CA contra 2,8 dias para pacientes que não apresentaram nenhuma condição adquirida durante sua internação. O estudo estima em R$10,9 bilhões o custo dos eventos adversos evitáveis para o sistema de saúde brasileiro, mas alerta que tanto esse número quanto a estimativa de óbitos encontram-se subestimados.

E como fica o profissional de saúde na transformação desse cenário? O artigo fala que “no Brasil, a estrutura física, os equipamentos disponíveis para a assistência, a qualidade e o controle de processos assistenciais, o correto dimensionamento do quadro assistencial, as características e dimensão do hospital, e o atendimento à legislação sanitária brasileira de grande parte da rede hospitalar não atende aos requisitos mínimos necessários para a segurança assistencial”. Além disso há questões regulatórias e de modelo de compra que também influenciam.

A maioria desses fatores está além do escopo de atuação diário de qualquer profissional de saúde na assistência. Porém, não se pode perder de vista que todos esses fatores atuam em conjunto para que, na ponta, o profissional prestando o serviço possa ser mais eficaz e eficiente em sua atuação. Avaliando sob essa perspectiva há uma grande oportunidade de diferenciação dos profissionais de saúde pois aqueles que dominarem as melhores práticas e protocolos de assistência segura e, estiverem em condições não somente de praticá-los mas também de implementá-los, terão enorme demanda no mercado.

O cenário apresentado pelo estudo não é nem um pouco animador mas, onde há problemas, há oportunidades. O profissional de saúde que conseguir demonstrar uma prática de assistência segura, mesmo em realidades de atendimento desfavoráveis, terão grande destaque no setor e no processo de mudança pelo qual o mesmo está passando.

Acesse o estudo completo em https://www.iess.org.br/cms/rep/asah_2016.pdf

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